quarta-feira, 15 de maio de 2019

No home

Vivo em todos os lugares, conheço um pouco de cada canto.
Num dia estou morando no Bom fim em frente ao parque da Redenção,
nesta mesma noite estou no Moinhos de vento, passeando a luz do luar pelo parcão,
alguns dizem ser perigoso, mas não faço parte deste clube.
Não tenho paradeiro, sou de muitos lugares, muitos amores.
Canto junto com Renato Russo, "já morei em tanta casa que nem me lembro mais..."
Tive momentos que cansei de tanto viajar pelos bairros de Porto Alegre,
em um destes decidi morar em um condomínio no melhor bairro ( ao menos o que eu pensava),
mas como minha luz brilhante ofuscaria os ricos badalados, me convidaram a encontrar um outro lugar.
Frequento os melhores bairros, faço as melhores dietas, meu estilo de vida causaria inveja em muitas pessoas.
Mas de que adianta, frequentar os melhores lugares e dos melhores pratos, comer apenas o resto.
Ser julgado e chamado de maltrapilho, vagabundo, sujo.
Caminhar de pés descalços, em meio a tanto cascalho, pagando minhas promessas e todas do mundo inteiro.
Tento encontrar um abrigo, mas qualquer pessoa que pareça ter informação, nem ao menos me olha nos olhos.
Vou  então atrás de um lugar para dormir no inverno, os raios de sol entram com tanta vida na Casa de Cultura Mario Quintana, tem até um quarto feito para mim, resolvo me despir de ignorância e vestir cultura, mas as pessoas mais inteligentes não me deixam ficar lá.
Onde posso morar? Quando meu lar é lar nenhum, minha casa são as ruas limpas e sujas da cidade.
Depois de  caminhar, pés com sangue quente aquecendo a pele, encontrei a Igreja Nossa Senhora das Dores.
Olhei para trás, deixei um longo rastro de pegadas vermelhas.
O lugar no qual, segundo a sociedade cristã, todos são iguais.
Entrei e desabei. Quando acordei, toda a dor, sangue e sujeira haviam desaparecido, estava vestido com linho branco e aquecido por uma manta quente.
Não sabia se finalmente alguém havia sido humano, ou se estava no lugar o qual chamam de paraíso.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Brava gente "branca".

Queria hoje te falar, para sempre se por em meu lugar antes de me agredir com suas palavras, elas machucam mais do que punhos cerrados. Preciso que saiba, que embora não tenha vivido na época da escravidão física, as dores de meus ancestrais me doem hoje. Me dói quando alguém como eu que nem conheço, todos os dias morre por ter a cor da pele negra; me dói quando tento aquele emprego dos sonhos, que por tanto lutei, aquele que tenho todos os pré-requisitos, mas quando chego a entrevista alguém me olha dos pés a cabeça e diz que a vaga já foi preenchida. 
Me dói quando o negro é o perfil dos bandidos.
 Me dói quando não me vejo representada como alguém que pode ser bem sucedido, nos filmes e novelas; me dói quando reconhecem os negros na história apenas como escravos e no momento de representar nossa cor, como um povo magnífico no Egito, os atores não são negros. me dói quando vejo que o país necessita de cotas e mesmo assim, são poucos negros nas universidades.
Dói quando dizem que somos privilegiados pelas cotas raciais, quando tivemos que estudar tanto ou mais que as pessoas que não as solicitam.
Que privilégio para meu povo, ter sido escravo por séculos;
que privilégio ter tido nossa identidade e cultura roubadas;
privilégio não ser representado em lugar algum;
privilégio ter dificuldade em conseguir cargos altos;
privilégio sofrer racismo constante;
privilégio além de ter a cultura roubada, quando nós a usamos, sofremos preconceito.
privilégio ver nossa religião sendo rotulada como algo ruim, que nem ao menos sabem explicar, porque assim é o preconceito, nunca tem argumentos sólidos, nunca tem argumentos de existir.
Mas que privilégio !! Ser negro em um continente colonizado por europeus, continente feito de índios, negros sendo roubados de seus países e sendo feito de escravos por europeus, vidas que foram e são usurpadas. Intolerância é fruto de países sem educação, sem educação histórica, sem educação de valores e respeito.
Peço para que nunca mais me ofenda, de forma alguma. Ninguém deve ser julgado pelo que se é, exceto quando interferimos na forma de ser do outro. Peço paz.

Sinto muito

Me sinto tão confusa que quase não consigo escrever certamente não consigo por em palavras, mas continuo tentando. Eu te amo, e se te peço d...